
Foto: Djair (FCCR)
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Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Tereza? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros.
E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Tereza ou Maria.
poema "Chuva de Caju" de Joaquim Cardozo, 1936
Nota biográfica: Joaquim Cardozo nasceu em Recife no dia 26 de agosto de 1897.Estudou no Ginásio Pernambucano, formou-se em Engenharia enfrentando grande dificuldade financeira, que o obrigou a interromper o curso duas vezes. Joaquim foi um homem recatado e tímido, um intelectual de rara sensibilidade e vasta cultura (ele lia os poetas chineses no original). Na verdade foi um poeta em tudo o que realizou além da própria poesia. Engenheiro calculista, em parceria com Oscar Niemeyer, compôs autênticos poemas de concreto, na Pampulha em Belo Horizonte e em Brasília, de que são exemplos notáveis a igrejinha da Pampulha, a Catedral de Brasília e o Palácio do Planalto. Além de calculista, Joaquim foi chargista, teatrólogo, desenhista e até pianista. Como poeta cantou sempre as coisas do Nordeste e do Recife. O seu livro mais conhecido é Signo Estrelado e para o teatro, a peça O Coronel de Macambira. Joaquim voltou ao recife definitivamente muito debilitado e faleceu em novembro de 1978.